“Terra” parte do têxtil como símbolo de abrigo, memória e fragilidade. Na minha prática, os materiais funcionam como linguagem: cada obra constrói um argumento, uma posição perante o mundo. O tecido surge frequentemente associado ao corpo — como pele que protege, aquece e conforta — mas também como matéria vulnerável, sujeita ao desgaste, à ausência e à transformação.

Nesta peça, uma manta de lã torcida em espiral ocupa o chão, evocando simultaneamente acolhimento e aprisionamento. A textura macia e quente desperta um impulso quase físico de repouso e entrega, aproximando o espectador da ideia de “casa”. Contudo, esse conforto é ambíguo. A espiral sugere um movimento de atração contínua, semelhante ao mecanismo da memória e da saudade: um vórtex que idealiza o passado e suaviza as suas fissuras.

Entre mudanças, precariedade e desenraizamento, “casa” tornou-se um conceito instável — simultaneamente íntimo e inalcançável. “Terra” não procura representar um lugar específico, mas antes questionar a necessidade humana de regressar a uma ideia de pertença, mesmo quando essa pertença já só existe como construção afetiva.

Ao convidar o corpo a um falso aconchego, a obra confronta também a ilusão do conforto e a forma como a nostalgia pode distorcer a realidade.

Terra 
2017

Escultura de lã torcida
25 x 200 x 200 cm

Fotografia da exposição ARTLAB “Terra Incógnita”, Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino, 2017