“em autoconsumo” articula-se a partir de uma tensão entre matérias naturais produzidas, que se acumulam, sustentam e excedem. A cortiça estabelece-se como superfície e corpo, enquanto a lã se adensa sobre ela, expandindo-se numa lógica de saturação e permanência — uma matéria em excesso, sem escoamento, que apesar da sua promessa de transformação, se acumula como que um fungo diante da outra matéria em ascensão.
Entre ambas instala-se um regime instável, onde crescimento e desgaste se confundem. A matéria não circula: acumula-se, infiltra-se, dobra-se sobre si própria, num sistema que persiste apesar da sua – ou nossa – própria falha.
O cabelo surge simultaneamente como raiz e sutura — linha de continuidade, tradição, saber fazer – é um símbolo da presença humana e da sua intervenção sobre estas matérias produzidas. Prolonga a peça para fora de si, esvaindo-se no seu limite físico. Na proximidade do corpo do espectador, estes fios ativam-se, deslocando-se quase impercetivelmente, como se respondessem a uma presença que também os desestabiliza.
A obra configura-se como um sistema em tensão, onde sustentação e colapso coexistem. Um processo fechado, em erosão contínua.
em autoconsumo
2026
Cortiça, lã, cabelo
~ 100 × 30 × 12 cm